Archive for Julho, 2008

O poder das palavras

Julho 31, 2008 - 12:58 pm 1 Comment

 

Reconheço que o trabalho do juíz não é "pêra doce", e falo com alguma experiência no assunto. Pede-se que um juíz seja uma pessoa isenta, neutra quanto baste, observadora, lógica e racional. Se a tais qualidades juntarmos uma grande capacidade técnica no domínio da matéria jurídica, temos então um agente judicial do mais alto gabarito. No entanto, isto não significa que a pessoa seja desprovida de valores ou princípios morais, pelos quais rege a sua vida. Significa apenas que será uma pessoa que, em condições profissionais, será capaz de resistir a tentações e a preconceitos adquiridos, para formular um juízo justo e adequado ao caso em mãos.

Só que a vida tem forma de nos dar a volta. Quem anda no meio sabe que muitas vezes é com enorme dificuldade que nos sujeitamos às provas que se apresentam na barra do tribunal. A isenção que se pede para um julgamento de um ladrão é a mesma que se pede para um violador ou um assassino, mesmo que as suas medidas de pena sejam diferentes. E este é que é o verdadeiro teste.

Desde ontem que a juiz Ana Gabriela Freitas, do Tribunal de Felgueiras, está debaixo de fogo e, possivelmente, na alçada do Conselho Superior de Magistratura, após a eventual e prometida queixa do Alto-Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural. Isto porque, em leitura de sentença, a Juíz proferiu considerações pouco abonatórias sobre a comunidade cigana.

Mas aqui temos de abrir um parênteses: normalmente, tratando-se de processos crime, os juízes têm por hábito proceder à leitura da sentença (e exigido na Lei processual penal). E, durante ou o final da leitura, muitas vezes prestam-se ao risco de alertar, advertir ou chamar à atenção do arguido, do âmbito e das consequências da sua leitura. Na maior parte dos casos não se trata de matéria da sentença mas uma opinião, um ‘juízo’ que parte já das suas considerações pessoais e não tanto da apreciação jurídica. Quantas vezes já não assisti a discursos directos dos juízes ao Arguido, advertindo-o disto e daquilo…

Em causa estão acontecimentos ocorridos no dia 7 de Janeiro de 2006 em que um grupo de cidadãos de etnia cigana estava a fazer uma festa no Bairro João Paulo II, em Felgueiras, com música alta e disparo de tiros com armas de fogo. A GNR foi chamada ao bairro, a que a Juíza chama de "Cova da Moura cigana", para pedir silêncio. Contudo, moradores e agentes da GNR envolveram-se em agressões físicas e verbais.

Foi numa dessas ‘incursões’ que, durante a leitura de sentença, a Juiz de Felgueiras dirigindo-se aos cinco elementos de etnia cigana acusados de agredir diversos agentes da GNR, declarou que a comunidade cigana tinha um estilo de vida com "pouca higiene", era "traiçoeira" e "subsídio-dependente", sendo "pessoas mal vistas socialmente, marginais, traiçoeiras, integralmente subsídio-dependentes de um Estado a quem pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral dos seus agentes".

Na verdade, apesar da dureza das palavras, do local e situação em que as mesmas foram pronunciadas, creio que as expressões da Juíz manifestam a sua opinião e não uma formulação jurídica determinada na sentença – embora obviamente tenham peso na justificação e consideração dos factos acarretados para o processo. O problema é que, da opinião do Juíz faz-se ‘caso julgado’, sobretudo quando ele é o responsável pelo decisão sobre o futuro dos visados.

Assim e a partir do momento em que a Juiz se submete ao juízo popular pelo âmbito das suas declarações, fundadas ou não, não só põe em causa todo o processo, como legitima a revolta dos arguidos (mesmo que culpados com quantos dentes tenham na boca). Este é o corolário de princípios constitucionais que garantem a presunção de inocência, a igualdade e o direito a um julgamento imparcial pelo contraditório.

A questão não se coloca se a Juíz tem ou não direito à sua opinião – porque como qualquer cidadão que se preze, o direito à expressão é um dado adquirido. A questão coloca-se na expressividade das suas palavras (e se quisermos no local em que as pronuncia) e até que ponto as mesmas a influenciam ou toldam a sua capacidade de juízo livre e isento. Sim, porque é exactamente essa sua manifestação pública que acaba por assombrar todo o seu trabalho (mesmo que seja tecnicamente perfeito) e que abre as portas a todo o género de ataques, muitos deles mais cínicos e maldosos que as suas próprias declarações.

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Lição para casa

Julho 31, 2008 - 11:25 am No Comments

 

É notícia hoje no Diário de Notícias que o Governo Regional vai passar a tabelar o preço dos combustíveis na Madeira. Esta decisão marca o fim da liberalização do mercado de combustíveis no arquipélago.

Na sequência da monitorização que vem fazendo, do preço em vigor nas diferentes bombas de gasolina da Região, a Direcção Regional do Comércio, Indústria e Energia chegou à conclusão que a prática usual era de subir o preço quando a Galp, Repsol e BP subiam no continente, mas nunca baixavam quando as gasolineiras nacionais o faziam.

A Região procurou junto da Galp explicações sobre as razões para que a baixa dos preços a nível nacional não fosse acompanhada na Madeira, tendo a gasolineira revelado que não fazia tensões de baixar o preço, com a justificação de que tinha muito combustível em stock, adquirido a um preço distinto daquele que estava a ser comercializado no continente. Só que quando confrontada com o facto de que os aumentos nunca tiveram em atenção ao combustível em stock adquirido a um preço inferior, a Galp remeteu-se ao silêncio.

A verdade é que não estando explicada esta dualidade de critérios para apenas uma parcela do território nacional, onde a Galp se dá ao luxo de não baixar os seus preços, e ainda a circunstância de ao longo de um mês o preço variar sempre para cima, e mais do que uma vez, embora o stock de combustível seja eventualmente adquirido a um preço inferior, considerando ainda os elevados custos sociais, para os madeirenses e todos os operadores, bem como a clara ineficácia do funcionamento do mercado e a instabilidade do mercado do petróleo, todas estas circunstâncias vêm legitimar esta intervenção do governo.

Socorre-se a Região, e bem no meu entender, a um regime de preço máximo ou especial, recorrendo para o efeito de uma fórmula que considera diferentes variáveis, como seja os preços do barril de petróleo, a tributação em vigor (ISP), os sobrecustos com os transportes, entre outros. Assim o Governo da Madeira passa a fixar, quinzenalmente, o preço do combustível na Madeira.

Com a assinatura da portaria agendada para hoje tudo indica que a baixa do preço do combustível na Madeira poderá ocorrer já amanhã, dia 1 de Agosto, sendo expectável que a gasolina baixe 5 a 6 cêntimos, mantendo-se a um preço inferior ao praticado no continente português, já que a Região tem uma taxa de ISP inferior à aplicada em Portugal.

Quando o mercado português dos combustíveis preencher as condições necessárias para uma livre concorrência entre os seus agentes, aí sim, voltará a existir razões para o regresso à sua liberalização. Mas enquanto se mantiver este estado de sítio ao bolso dos portugueses (com a complacência do Estado), num absoluto desrespeito pelas regras básicas de comércio, esta medida é perfeitamente acertada.

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Ases da Bola

Julho 30, 2008 - 8:15 pm 3 Comments

 

Ainda não tinha falado disto aqui, talvez porque perdemos os três primeiros jogos. Talvez. Ou por falta de tempo. Ou sei lá… porque sim. Mas está na hora!

Está na hora porque ontem vencemos o nosso primeiro jogo. Mas vamos por partes. O pessoal da futebolada de sábado de manhã, decidiu entrar pela primeira vez, num torneio oficial de futebol de 5. O torneio escolhido foi o da Camacha, organizado pela Casa do Povo lá do sítio. O nome da equipa? Já adivinharam… Ases da Bola. O símbolo está um espectáculo, não está?

Mas, como qualquer nova experiência, os Ases entraram completamente às aranhas no torneio. Falta de sentido, organização e um nervoso miudinho em alguns jogadores que, nem a presença do campeão de futsal da 2ª Divisão Regional conseguiu disfarçar. Mas aos poucos vamos apanhando o jeito. Tanto que, após 3 tentativas falhadas (se bem que uma delas foi contra o principal candidato ao título e 8-4 não é desprimor para ninguém), conseguimos a nossa primeira vitória! 3-2 contra a equipa do Auto Rachão!

Com o rali vem um fim de semana de folga. Para descansar e reorganizar. Próxima semana há mais. E agora, para os Ases, é sempre a subir! Esperamos nós!

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Relações Perigosas

Julho 29, 2008 - 12:45 pm 2 Comments

 

O que se segue é a notícia do dia. É artigo de quase todos os diários do país. Circula à velocidade da net e já é tópico em dezenas de blogues. E justificadamente digo eu.

José Maria Correia, 53 anos, empregado de mesa há 32, foi condenado pelos crimes de homicídio na forma tentada e detenção de arma proibida. O motivo? O indivíduo baleou os vizinhos por acreditar que um deles, pelo facto de ser homossexual, estaria a sodomizar o seu gato. (desculpem… mas agora tenho de fazer uma pausa pois já tenho a minha barriga a doer!)

Mas recuperando, o Tribunal São João Novo, no Porto, deu como provado que, em 27 de Outubro de 2007, José Correia pediu a Anabela Cruz Silva (atingida pelos disparos), que se encontrava no pátio das habitações, que a ajudasse a resgatar o seu gato que havia fugido para um terreno contíguo. Na impossibilidade de Anabela Silva poder responder à solicitação do arguido, o vizinho José Pedro Macedo, que estava à janela da sua habitação e se apercebeu da situação, prontificou-se a ajudar no resgate.

Quando José Correia viu José Pedro a tentar apanhar o gato começou a proferir expressões injuriosas sobre a sua orientação sexual. Assim que consegue capturar o animal, o vizinho de José Correia desloca-se para a habitação do arguido, ficando Anabela Cruz no pátio, onde foi atingida pelos disparos de uma pistola Browning, de calibre 6.35, pertencente ao arguido.

Provou-se ainda que José Correia acreditava que a pessoa no pátio era José Pedro e estava convicto de que "este era homossexual e que pudesse ter havido contactos de natureza sexual entre o vizinho e o gato".

O tribunal deu como provado que José Correia agiu deliberada e conscientemente com o propósito de tirar a vida a José Pedro, considerando a sua postura durante o julgamento "profundamente desconcertante" e com um "comportamento homofóbico". Durante as buscas policiais foram encontradas 38 munições em casa do arguido, conhecido por "Zé Pistoleiro".

O juiz-presidente, João Amaral, considerou que o motivo que desencadeou os factos é torpe: "Dar um tiro em alguém por ser homossexual e por supostamente ter tido relações sexuais com um gato que ajudou a resgatar, e por isso o animal ter ficado homossexual, é talvez o motivo mais torpe que eu já vi na minha vida".

À conta disto, o nosso amigo pistoleiro vai cumprir cinco anos e seis meses de prisão efectiva. E vai para o melhor sítio para curar a sua homofobia. O único problema é que não há gatos…

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Mais do mesmo…

Julho 28, 2008 - 11:05 am 3 Comments

 

Uma vez por ano, o Chão da Lagoa fica mais laranja e os burros do parque passam o dia a ver hordas de militantes a trepar até ao habitual forrobodó da festa do PSD Madeira. Sem a presença da nova líder do PSD nacional, e com os "enviados" do Porto Santo à procura das suas passagens de regresso, subiram ao púlpito Nivalda Gonçalves, Miguel Albuquerque, Jaime Ramos e, claro, Alberto João Jardim. Mas vamos ao que importa.

As frases chave de Alberto João Jardim:

- "Há gente que não gosta do povo, prefere estar com a grande burguesia do eixo Lisboa-Cascais e a grande burguesia do Porto, mas esse não é o nosso PSD." (para Manuela Ferreira Leite)

- "O Estado português desapareceu da Madeira, só existe com as suas forças policiais e os seus tribunais. São forças de ocupação colonial." (para José Sócrates)

- "Em Portugal vive-se num socialismo selvagem, apoiado pela burguesia (…) que se mantém porque quem o poderia mudar quer é, às cinco da tarde, mudar de camisa e ir para casa ver televisão". – Alberto João Jardim

- "É um insulto os portugueses serem governados por Sócrates" – Alberto João Jardim

Jardim durante a semana prometeu que cumpriria os protocolos associados ao seu cargo e que o seu discurso seria a de um representante do Estado. E foi. Dentro dos parâmetros muito largos de um ‘bicho político’ chamado Alberto João Jardim. Afinal, só atacou o primeiro-ministro, a líder do seu próprio partido, os tribunais, a polícia, os funcionários públicos, os "boys" do PS, e por aí fora…

Se os restantes discursos até foram comedidos, dentro do possível, Jaime Ramos, com a sua habitual sensibilidade e delicadeza, deitou a casa abaixo. E, quando se dispôs a falar da possibilidade dos casamentos homossexuais até se engasgou. Coitado. Mas as suas maiores pérolas foram as que se seguem abaixo:

- "Quem quer ilhas no Atlântico tem de pagá-las, tem de sustentá-las."

- "O Estado não tem pago o que deve. Portugal tem de pagar a horas, se não vai ter uma acção de despejo dos madeirenses"

Depois disto? Que mais se pode dizer?

Eu não morro de amores por Lisboa e suas lides políticas. E o discurso do "paga isto, paga aquilo" igualmente já cansa, quer do lado de lá do mar, quer deste. O envenenamento promovido pelos órgãos de comunicação social (voz de sectores particulares ligados ao governo PS) é igualmente por demais evidente, como é evidente a dualidade de critérios e comportamentos para as Ilhas.

Mas, depois ouvimos barbaridades como as acima expostas, produzidas na nossa própria terra, e ficamos completamente desconcertados. Será que no mínimo alguém pensa do que diz? Quer dizer, andamos a apregoar (ou pelo menos, alguns andam) o sucesso da Madeira, a sua riqueza e evolução, para agora os membros mais altos da cúpula do Partido, atacarem o Governo porque não lhes dá mais dinheiro? Mas afinal a quantas ficamos?

Sou só eu que acha que isto não faz sentido nenhum? Ou a política é mesmo assim? Apresentar cartas, baralhar, voltar a baralhar para servir sempre as mesmas. Já cansa.

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O verdadeiro Cavaleiro das Trevas

Julho 25, 2008 - 6:12 pm No Comments

 
Como previa, ontem fui mesmo ver o novo filme da ’saga Batman’, sob a batuta de Christopher Nolan – "The Dark Knight". E, meus senhores, confirmei tudo aquilo de bom que diziam do filme. Está simplesmente soberbo e é, de longe, dos melhores filmes que vi este ano. Como sempre, um comentário mais profundo será publico no Cinema Madeira.

 
Christian Bale como Bruce Wayne/Batman está excelente.

 
Heath Ledger despede-se de nós com uma interpretação inesquecível do vilão Joker

 
Aaron Eackhart surpreende como Harvey Dent/Two Face

Depois disto tudo, só me apetece mesmo é deixar um recado ao Sr. Eurico de Barros. E, melhor que tudo, de borla. Oiça… dedique-se à pesca. Porque de cinema, não vai lá.

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O rapaz que mordeu o cão

Julho 25, 2008 - 5:39 pm 1 Comment

 

Há um miúdo no Brasil que tem sido a estrela dos noticiários. O motivo? O sonho de qualquer editor de jornal. O rapaz mordeu o cão… literalmente!

Gabriel Almeida, de 11 anos, estava a brincar no pátio da casa do seu tio, na cidade de Belo Horizonte, no Brasil, quando uma cadela chamada ‘Tita’ o atacou e o mordeu no braço esquerdo. Em defesa, o jovem agarrou a cadela pelo pescoço e mordeu-a com tanta gana que perdeu um dente canino. Um grupos de pedreiros, que trabalhava ali perto, foi em seu socorro e conseguiu afastar a cadela antes desta voltar a atacar.

O rapaz foi levado para o hospital onde levou quatro pontos no braço, enquanto que a cadela foi levada para o canil municipal, escreve o ‘Folha de São Paulo‘.

Aposto que a cadela apanhou o susto da vida dela…

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A Crítica

Julho 24, 2008 - 11:23 am 2 Comments

 

O dia de hoje marca a estreia mundial de "The Dark Knight", o segundo filme sobre a chancela de Christopher Nolan, que ressuscitou um herói moribundo, com o excelente "Batman Begins", em 2005. É com muita expectativa que irei ver o filme, sobretudo depois de ouvir maravilhas sobre a história e a interpretação dos actores, com particular destaque para o ‘Joker’ do falecido Heath Ledger.

Curiosamente, a primeira crítica que li foi absolutamente devastadora ao filme. Foi do nosso conhecido crítico Eurico de Barros que, do alto da sua sapiência, para além de dar 1 estrela em cinco possíveis, lança logo várias pérolas como quando afirma que "quando Tim Burton trouxe Batman para o cinema como ele merecia, fê-lo mantendo-se fiel ao espírito da criação de Bob Kane, mas instilou-lhe a sua marca de poesia lúgubre, sensibilidade "gótica", fantasia visual sombria e sentido de humor com calafrios". Disse ainda que Nolan "insiste ainda mais na simplificação dramática das personagens e na acção hiperviolenta, desmesurada, ensurdecedora e incoerente que se tornou no pão com manteiga dos blockbusters de Hollywood". Sobre Heath Leadger diz que o seu "Joker sociopata terminal parece o palhaço Bozo interpretado por Marlon Brando depois de uma noite de estúrdia brava numa casa de meninas". Para finalizar – a cereja no topo do bolo – Eurico de Barros diz que "que quase que dá vontade de perdoar a Joel Schumacher por ter levado Batman para Las Vegas". (Leia aqui a crítica na íntegra).

A par do "Homem Aranha" e do "Indiana Jones", "Batman" era um dos meus heróis preferidos da BD. Por isso tenho algum conhecimento da personagem negra criada por Bob Kane. Algo que o Sr. Eurico de Barros parece completamente desconhecer. Poderia eu próprio responder por palavras minhas a este ‘crítico’, mas prefiro transcrever duas óptimas opiniões, retiradas do site Cinema2000.

Uma opinião vale o que vale e não se quer com isto travar nenhuma guerra, coisa que não tem faltado à conta deste filme por esta internet fora. Mas é notório que existe uma certa tendência por cá, para se enaltecer os chamados "autores". E não há mal nisso, quando é justificado e merecido. Mas…

"Quando Tim Burton trouxe Batman para o cinema como ele merecia, fê-lo mantendo-se fiel ao espírito da criação de Bob Kane, mas instilou-lhe a sua marca de poesia lúgubre, sensibilidade "gótica", fantasia visual sombria e sentido de humor com calafrios."

Dizer que Tim Burton se manteve "fiél" ao espírito do personagem revela duas coisas: ou desconhece o personagem ou está demasiado apegado ao universo pessoal do realizador. Porque o Batman de Burton é tudo menos fiel ao material original (não me lembro de Bob Kane alguma vez ter empurrado o personagem para um plano tão secundário ao ponto de o tornar uma sombra). Aliás, não é de todo imperceptível na construção dos personagens, a filtragem feita pela imaginação de Burton dos esquemas da velha série de televisão, transmitida nos anos 60 e que foram a única referência de Burton em relação ao personagem. É essa a "fidelidade ao espirito original do personagem"?

Mesmo o superior "Batman Returns" (quando comparado com o muito controlado "Batman") resvala demasiado num fetichismo sado-masoquista (por pouco imaginava a Catwoman a chicotear as nadegas de latex do Cavaleiro das Trevas). São sem dúvida bons filmes de Burton, mas de Batman, muito pouco. É notório o desequilíbrio entre narrativa e estética (os personagens raramente têm uma dimensão psicológica consistente e são desperdiçados em histórias que mais parecem tiradas exactamente dos anos 60).

"Batman Begins" não só finalmente tornou o morcego num personagem, mas realmente mostrou preocupação com o seu universo e os seus mecanismos. "The Dark Knight" vai ainda mais longe. É Batman enquanto símbolo e aquilo que representa. De certa forma, Harvey Dent e o Joker são as duas faces da moeda que é o Cavaleiro das Trevas. É um filme superior em muitos aspectos, mas maior é o trunfo de ser dos poucos que percebe a dimensão mitológica dos personagens, dos seus arquétipos e tece uma espécie de história moral que é central na sua essência.

E o que dizer do Joker de Ledger ? É o retrato definitivo do personagem. Quando Jack Nicholson pôs maquilhagem branca e quase devorou o filme de 1989, percebeu-se porque o actor tanto insistiu para que o filme fosse seu: é um veículo para a personalidade do actor transparecer no ecrã. Nicholson fez de Nicholson, com uns certos tiques de César Romero (obrigatória referência para se manter "fiél ao espiríto do personagem"). Alguém viu por ali um Joker ? Não. E foi isso que Heath Ledger soube fazer: entregou-se a fundo ao papel, ao ponto de se ter deixado engolir por ele. Não só isso, mas soube-lhe ser fiél, não só ao seu espírito, mas às suas motivações (aliás, creio que nunca o Joker se definiu tão bem como neste filme) e à simbiose com o morcego. E, proeza das proezas, faz seu o filme sem tirar brilhantismo aos restantes, dos quais Aaron Eckhart sobressai como um verdadeiro "underdog". Ele é a alma e coração do filme. E aqui está outro aspecto que o demarca dessa "monumental obra-prima" que é o diptico de Burton: os secundários têm substância, não são meros apontamentos ou notas de rodapé a marcar presença. E a todos lhes é dado tempo e conteúdo.

Não está isento de falhas (talvez demasiado a acontecer ao mesmo tempo torna a encruzilhada narrativa demasiado labirintica) mas é sem dúvida um filme maior. No seu género, creio que será mesmo o melhor (espero para ver o que sai de "Hellboy 2"). Um dos melhores do ano, sem dúvida. - Pedro Almeida

«O Cavaleiro das Trevas» está longe de ser o típico filme de super-heróis. Christopher Nolan realizou e escreveu, juntamente com o irmão, Jonathan, um poderoso e complexo argumento. Após «Batman — O Início», de 2005, as arestas foram polidas e o novo filme segue talvez os melhores anos de Batman nos comics: os anos 80 e a fase escrita por Frank Miller, onde a moralidade das escolhas alia-se ao lado criminal noir, substituindo a faceta mais lírica do super-herói. Em 2005, eram reveladas as origens de Bruce Wayne e o alter-ego Batman (Christian Bale), agora é a vez de se conhecerem as motivações deste personagem e também a suprema apresentação do seu arqui-inimigo, o Joker (Heath Ledger). Uma relação explorada de uma forma tão letal quanto poética.

É nesta perspectiva que Nolan insere os heróis da banda desenhada num grandioso épico moral com uma génese bem próxima da realidade. Os desígnios de Joker são desconcertantes e actuais, com imensas semelhanças ao espírito do terrorista mais procurado do mundo. As ameaças efectuadas à cidade de Gotham são apontamentos para os locais que foram feitos reféns do terror, chegando mesmo esta alegoria a explorar a violação das liberdades individuais como um meio para alcançar um bem maior. A luta contra a anarquia imposta por Joker, tal qual a realidade, não tem vencedores, apenas uma vitória pírrica. Esta produção é de longe a mais negra dos filmes de personagens com matriz inspirada nos comics, fiel ao lado policial das aventuras de Batman, com o enredo e a filmagem sempre a deixar pistas para uma larga conspiração, numa narrativa com mais fios (narrativos) do que um tapete de Arraiolos.

«O Cavaleiro das Trevas» tem três momentos distintos. Após o fantástico prólogo, com uma apresentação em grande estilo de Joker, surge um triunvirato com a Justiça, a polícia e o vigilante, que é como quem diz, Harvey “Duas Caras” Dent (Aaron Eckhart), o comissário Gordon (Gary Oldman) e Batman. Juntos formam a frente de combate ao crime organizado enraizado na cidade. Tudo muda com o aparecimento do agente do caos, conhecido como Joker. O seu diabólico plano é posto em prática e Heath Ledger domina este trecho. A apoteose é, por sinal, bastante singular: as explosões e os grandes efeitos, normalmente reservados para o clímax, são substituídos, e bem, pela batalha pela alma de Gotham.

Christian Bale é conhecido por explorar devidamente o lado negro dos seus personagens e Batman é adequado aos seus dotes. Não é propriamente um herói afável pois trata-se de um papel construído a pensar no enredo e não no público. De facto, em paralelo desenvolvem-se entre outros acontecimentos. A realçar o personagem de Harvey Dent, que cria a sua própria sorte e deseja ser herói antes de morrer vilão. Numa metamorfose aterradora, pela sua brilhante caracterização, com e sem efeitos, o seu trajecto é digno de uma tragédia grega. O seu encontro com Joker é um dos grandes momentos da filme, com o baptismo de um novo vilão fisicamente distorcido e com uma moralidade estilhaçada. Uma bela interpretação de Aaron Eckhart.

Por seu lado, Heath Ledger interpreta Joker de uma forma soberba, criando um personagem visceral, tenebroso, enigmático e indecifrável. Toda a expectativa em torno desta performance não foi em vão, é ver para crer. É desconcertante visionar cada sequência com o Joker, pois é um processo com charme que perturba, mas não satura. Um lápis em cima de uma mesa que “desaparece” não é um truque de magia, mas um atestado de demência de um personagem que ficará para sempre na galeria dos vilões da 7ª Arte. E essa é apenas uma das muitas imagens que definem a sua incontornável presença neste filme: em cada aparição surge um novo Joker, que tem várias histórias para as suas cicatrizes faciais, percebendo-se rapidamente que estas se propagam à sua alma. O som e imagem ajudam à personificação da personagem: a própria câmara treme com a sua presença. Percebe-se que o argumento foi construído a pensar nesta carta fora do baralho e é doloroso saber que esta performance marca a despedida de um grande actor.

O realizador Christopher Nolan juntou ao projecto um talentoso grupo de actores que enriquece a obra em desempenhos secundários, justamente provocando oscilações nas relações humanas e motivando um interesse para além do espectáculo visual. Daí que «O Cavaleiro das Trevas» seja um filme de “duas faces”, sempre a carburar no limite, com a acção e o drama em constante cruzamento. Para além de Eckhart, surge Garry Oldman, que interpreta novamente o comissário Gordon e traz igualmente consigo uma ambiguidade moral. Como side-kicks, encontramos Michael Caine (o mordomo Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox), que acrescentam a voz da consciência de Wayne/Batman e linhas que aliviam a constante tensão da história. A fechar, Maggie Gyllenhaal como Rachael Dawes, interesse amoroso de Wayne e Dent, papel antes interpretado por Katie Holmes.

Com várias sequências a serem filmadas através do processo das câmaras Imax, resultando numa maior resolução, textura e claridade, a acção está mais próxima do espectador. Aqui, no entanto, e apesar da produção gigantesca, a ênfase nos efeitos CGi não é predominante: os stunts humanos dominam e produzem algumas das melhores cenas. A música do filme volta a ser dirigida por dois supercompositores, com Hanz Zimmer a compor os trechos musicais de Joker e Howard Shore os de Harvey Dent/Duas Faces.

«O Cavaleiro das Trevas» é um dos grandes eventos de 2008 feito a pensar no espectáculo do cinema em sala, Marca o crepúsculo de um grande actor numa grandiosa produção que junta o melhor de dois mundos e em que a trama e complexidade vão muito além do simples antagonismo entre Batman e Joker. Por baixo das máscaras e das pinturas, existem almas torturadas. - Jorge Pinto

Cada vez mais tenho a certeza que não temos ‘críticos’ em Portugal, no sentido profissional da palavra. E como isto quero dizer que não temos pessoas que não façam mais do que dar a sua opinião, sem qualquer preparação prévia, sem pesquisa da história, personagens, etc. Que o Sr. Eurico de Barros não goste de Christopher Nolan, tudo bem. Que até nem goste da personagem de Batman, ainda aceito. Mas há que saber separar aquilo que é a sua opinião pessoal daquilo que lhe pedem para fazer: uma crítica especializada, ponderada e informada. Para mais, quando são pagos para tal. Com algumas honrosas excepções, a maior parte do que se lê ou ouve é lixo.

O que importa é que "The Dark Knight" vai batendo recordes de bilheteira e no IMDB leva a impressionante nota de 9,5 com já mais de cem mil votantes registados. Sim, porque no final do dia, a nota mais importante, é sempre do espectador consumidor.

Se tudo correr bem, hoje vou ver o filme e, como habitualmente, colocarei a minha opinião no Cinema Madeira.

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Profissão de futuro

Julho 23, 2008 - 1:18 am 1 Comment

 
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Até para isto já há concorrência. Será consequência do ‘choque tecnológico’ apresentado pelo Governo PS? Já agora, será que descontam para a segurança social?

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Cargo ou Coerência

Julho 23, 2008 - 1:08 am No Comments

 

Se há algo que aprecio nos políticos é a sua histórica capacidade de coerência…

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