Cantinho do Mundo

daqui para aí…

Category : Crónicas

Na recta final

 
Saiu hoje a minha última crónica sobre o Mundial de futebol na África do Sul, publicada no Diário de Notícias da Madeira:

Durante um intenso mês foram disputados 62 jogos em solo africano, onde 32 equipas de todos os continentes disputaram entre si, o título para melhor do mundo. Agora estamos a menos de 48 horas de descobrir quem o será: Holanda ou Espanha. Se o polvo Paul mantiver a sua bitola, haverá festa entre nuestros hermanos.

O primeiro campeonato do mundo, já de si histórico porque realizado pela primeira vez em solo africano, apresenta outras razões para entrar na história. Para começar os finalistas: se a Holanda chega lá pela terceira vez, é uma estreia total para a Espanha, que em 4 anos corre o grande “risco” de se tornar campeã europeia e mundial.

Independentemente do resultado da final, esta será a primeira vez desde 1938 que duas selecções do mesmo continente ganharão sucessivamente o campeonato do Mundo (Itália ganhou em 2006). Também será a primeira vez que uma selecção europeia ganhará um torneio realizado fora da Europa. Será ainda a primeira final desde 1978 sem que os finalistas tenham vencido anteriormente este torneio e sem a presença do Brasil, da Itália, da Alemanha ou da Argentina.

E para aqueles que dizem que a qualificação para um Mundial vale apenas um bilhete para o torneio, Holanda e Espanha são as únicas selecções que venceram todas as suas partidas de qualificação para o Mundial de 2010, com a Holanda também vencer todos os jogos no seu caminho para a final.

Pela negativa este Mundial voltou a ficar ligado a duas decisões controversas das equipas de arbitragem, nomeadamente o golo não validado à Inglaterra nos oitavos frente à Alemanha, e o golo validado à Argentina contra o México que, pela primeira vez, levou o presidente da FIFA Sepp Blatter a um pouco usual “mea culpa”, prometendo reabrir a discussão sobre a introdução das novas tecnologias no jogo. Acredito, mas sem grande convicção.

E agora… venha a final!

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É servido um Portugal à Queiroz?

 
A propósito da eliminação de Portugal do Mundial da África do Sul, eis a minha crónica, publicada hoje no Diário de Notícias da Madeira:

«Quem assistiu aos jogos da nossa selecção, sobretudo aqueles que a acompanharam em outras edições europeias e mundiais, não a reconhecerá. Portugal era conhecido por esse mundo fora como uma equipa de posse de bola, de circulação e controlo do esférico. É verdade que a maior pecha sempre foi a finalização em momentos cruciais, mas é esse o estilo da equipa portuguesa, para o bem e para o mal.

Mas quem olha para esta equipa não a reconhece. Mérito de Queirós. De facto, com este seleccionador tudo mudou. Viu-se uma solidez defensiva impressionante, trabalho de sapa gigantesco no meio campo, tentativas de saídas rápidas para o contra-golpe, numa espécie de Grécia do Europeu de 2004. É um estilo de jogo que não agrada. Eu particularmente não gosto. Só que se a selecção helénica teve a protecção dos deuses do Olimpo, Portugal teve… Queirós.

Em 3 jogos a ‘sério’, Portugal ficou em branco. Quase não teve bola para jogar, passou a maior parte do tempo a impedir a construção de jogo do adversário e só esporadicamente tentou marcar. Mesmo ignorando as conversas da “treta” de finais e campeões habituais nestas alturas, a verdade é que se Portugal tinha objectivos mais altos, pouco fez para os conseguir. E nestes jogos a doer viu-se perfeitamente o trabalho de Queirós – que ainda conseguiu a proeza de transformar o Cristiano Ronaldo num jogador perfeitamente banal. E ainda há gente que insiste em criticar um tal de “il speciale”…

Que pena que não existem mais Coreias…»

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(Foto: AP)

 
Este foi um texto publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no DIÁRIO de Notícias do Funchal. Um texto pela caneta de Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor. Uma profecia que vista de longe parece… realizada!

Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço.

Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente. Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele.

Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor

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Escrevi este artigo sobre a Mediação Familiar que foi publicado no sábado passado, dia 20, no semanário ‘Tribuna da Madeira‘.

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Uma Empresa de Adeptos

 

UMA EMPRESA DE ADEPTOS

Há muito que defendo que o que falta à maioria dos clubes desportivos do nosso país é uma gestão empresarial profissional. Não a gestão "à chico-esperto", que procura sempre o caminho mais fácil e, muitas vezes para benefício de um ou alguns, como é apanágio em Portugal, mas sim uma gerência com vista ao desenvolvimento sustentado da empresa e à criação de bases sólidas para a obtenção e manutenção de resultados. Mas, ao contrário de uma empresa comercial no sentido estrito, num clube desportivo, e ao lado desta necessária gestão profissional, existe outro pilar fundamental para o seu sucesso, que é a gestão da sua potencialidade humana. Dito por outras palavras, falo do seu capital humano – dos seus adeptos.

No final do mês passado faleceu o Orlando. Para a maioria dos leitores o Orlando era mais um seu conterrâneo. Mas ele tinha duas características especiais que me obrigam a recordá-lo nestas linhas: era meu amigo e era um apaixonado pelo Marítimo. Apesar da sua enfermidade, que o atormentou anos demais, fizesse chuva ou sol, o Orlando nunca perdia um jogo do seu clube. Sacrificava a sua já instável saúde para ver jogar o clube do seu coração. Promoveu o seu clube, não por reconhecimento, mas por achar que era o seu dever. E foi como Maritimista que a morte o levou.

A direcção do Marítimo no jogo contra o Vitória provou que a maior riqueza de um clube está nos seus adeptos. Com um singelo gesto – uma camisola autografada com o nome do Orlando e emoldurada foi entregue no estádio à esposa e filho – recompensou aquele adepto anónimo que tudo fez pelo seu clube e ofereceu à família uma recordação eterna. E ganhou, acima de tudo, algo que o dinheiro não compra: a fidelidade.

Descansa em paz, meu amigo.

 
Publicada no DN Madeira, a 08/03/2009.

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“Advogado do teatro” in DN

 

Hoje na Revista do Diário de Notícias veio uma entrevista… comigo! Por acaso até ficou porreira. Não me posso queixar. O meu obrigado ao Duarte Azevedo. Se alguém quiser espreitar é só ler aqui. Se ainda não estiver registado no site do DN aproveite agora. Não custa nada.

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Psicose!

 
A minha pequena contribuição para o Diário de Notícias. Desta vez apeteceu-me falar de uma experiência muito particular…

A PSICOSE DO JOGADOR MADEIRENSE

Domingo passado fui ver o Marítimo juntamente com amigos. O jogo contra a Naval marcava a volta no campeonato e era também uma oportunidade de ver algumas das novas “contratações de inverno”. Daí que a expectativa era grande. Mas cedo os jogadores trataram de apagar a chama. Num jogo pastoso, sem velocidade e com apenas uma cara nova no onze – um perdido Rodrigo – a impaciência começava a tomar lugar face à esperança num bom resultado. Tanto que, a meia da primeira parte, após uma sequência de passes disparatados do Fernando lá saiu, de um dos meus amigos, a primeira frase digna de honrar nos anais da brejeirice…

Até aqui tudo normal. Mas então não é meu espanto quando um senhor, visivelmente exaltado, se levanta e insurge contra aquilo que ele chamou de ofensa aos madeirenses! E após vociferar algumas considerações sobre a condição psicológica dos meus amigos, começa a culpabilizar os brasileiros pelo passe errado, pela jogada que não saia, pelo remate ao lado, mesmo que o único lance perigoso da Naval na primeira parte tenha sido causado por uma perda de bola infantil do Luis Olim; ou que o Bruno tenha andado o jogo todo a passo; ou o Fernando que, apesar de toda a boa vontade, andou entretido a passar a bola ao adversário.

Não quero com isto, de alguma forma, perseguir os jogadores aqui visados. Até sou daqueles que acha importante ter referências da terra na equipa, quer pelo sentimento que trazem ao jogo, quer pela ligação mais íntima que permitem ao adepto – afinal é um da terra, é um de nós!

No entanto, não é, nem pode ser, alguém imune a críticas. Não é por ser da terra que se desculpará uma asneira grossa, que ponha em causa todo o trabalho da equipa. A esta ideia, a noção de qualidade é algo que não pode deixar de estar presente. O nível de exigência deve e terá que ser, no mínimo, tão elevado como o dos estrangeiros. A esta aparente quotização não pode bastar que seja madeirense. Nivelar por baixo, como corolário de um princípio de igualdade, é uma castração da evolução do madeirense, quer seja no pontapé da bola ou noutra arte qualquer.

Valha-nos que o jogo foi resolvido por um Aquino, um rapaz natural de São Pedro, concluindo uma bela jogada de um Ytalo, pauleiro de gema!

 
Publicada no DN Madeira, a 06/02/2009.

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A Revolta dos Porcos

 
Para quem não leu (ou não quis ler), cá vai a minha habitual crónica mensal no Diário de Notícias da Madeira.

 
A Revolta dos Porcos

No Domingo passado festejei vários golos. Festejei os do meu Marítimo sobre o Paços de Ferreira, naquela que foi uma bela entrada no ano novo. Mas tenho de confessar algo. Festejei igualmente e de forma intensiva, os dois golos com que o Trofense, último classificado, bateu o Benfica, o líder do campeonato até então. Mas não se julgue que o fiz por simpatizar com o clube da Trofa ou motivado por um qualquer sentimento de vingança pela humilhante derrota que impuseram nos Barreiros há algum tempo atrás. Bem, esta última parte não é inteiramente verdade…

Mas não. O principal motivo foi a alegria de ver um pequeno – e neste caso bastante pequeno e para mais estreante na divisão máxima do futebol português – contra todas as expectativas, a vencer um grande. Actualmente o futebol português é uma espécie de oligarquia a três, onde tudo o resto é paisagem e que lá está, apenas o está para prestar vassalagem aos senhorios. E esta tem sido a realidade marcante de todo o panorama desportivo português. As capas dos jornais reflectem esta realidade. O tempo de antena, quer na rádio quer nas televisões, reflecte esta realidade. A própria distribuição dos dividendos desportivos (leia-se direitos desportivos, transmissões, bilheteiras, etc.) reflecte esta realidade. A própria concentração dos adeptos em torno destes três polos reflecte esta realidade. E, esgrimindo a já velha desculpa de que “sempre foi assim” ou “são quem vende mais”, já ninguém estranha, já ninguém contesta e todos se conformam com o “status quo”.

Por isso considero que, um resultado como o de domingo, acaba por ter um efeito refrescante no enfadonho caldo nacional. E, embora o principal enfâse seja dado à derrota do grande e não à vitória do mais pequeno, são três pontos que ninguém retira e uma satisfação interior sem preço. Rejubilam os adeptos do Trofense – e, mais na calada, todos aqueles que sentem na pele a concorrência injustiça imposta pelos três maiores clubes portugueses com a cumplicidade dos principais média.

Esta jornada, que mais parecia retirada do campeonato inglês, tantos foram os golos e os bons jogos, veio provar que é possível haver equilíbrio do futebol português. Assistiu-se a um bom jogo na Choupana, nos Barreiros, em Vila do Conde. O calor da Trofa derreteu o campeão de Inverno. Em 7 jogos marcaram-se 22 golos. Com a isenção e motivação certas é possível valorizar o desporto nacional – e não apenas o pontapé na bola – através dos seus atletas e das suas prestações, independentemente da cor da sua camisola. Tudo isto é possível, mesmo sem uma revolução no chiqueiro. Basta ser justo. Basta querer.

Era bonito.

 
Publicada no DN Madeira, a 06/01/2009.

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A minha crónica

 
Escrevi isto ontem. Parecia que estava a adivinhar. Ou não…

A Traição
Data: 07-12-2008

"Acho inadmissível que os madeirenses apoiem as equipas do continente." As palavras são de Lori Sandri, treinador do Marítimo, em vésperas do confronto com o Benfica. Estas palavras não são inocentes. São dirigidas ao seio da alma maritimista. Portugal sempre foi um país de poucos focos e com uma curiosa tendência para o centralismo. Quer pelos naturais êxodos para a capital, quer pela atitude colonizadora que marcou as relações com o ultramar, Madeira incluída. Mas sempre houve quem resistisse a tal tratamento desigual.

Se a Madeira ainda se mantém politicamente rebelde, já o nosso povo se rendeu aos "encantos da sereia" do continente. O melhor exemplo será mesmo a nossa realidade associativa. Onde antigamente brigavam Marítimo, Nacional, União ou Machico hoje foram tomados de assalto pelos "3 grandes". Tanto que hoje existe uma nova espécie de adepto, um híbrido dividido entre clubes. E já é tão natural que o estranho passa a ser aquele que diz ser apenas do Marítimo ou da Camacha. É olhado de soslaio enquanto ouve uma resposta do tipo: "olha que engraçado", como se todos nós fossemos obrigados a engraçar com um dos três estarolas.

Hoje é dia de Maritimo-Benfica. Jogo importante para ambos emblemas. E porque o Marítimo luta por um lugar europeu a pressão do factor casa devia cair sobre o adversário forasteiro. Mas hoje veremos o povo superior a retirar o verde do seu equipamento. Porque ai vem o Benfica. Ignoram-se tradições, cospe-se na história de um pilar da Madeira. Em muito lado isso seria considerado traição à pátria.

PS. O Cristiano Ronaldo lá ganhou mais um prémio. Para mal de invejosos e maldizentes.

fonte: Diário de Notícias

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“Um Mistério chamado Lori Sandri” (in DN)

 
Hoje saiu o meu artigo habitual no Diário de Notícias. Decidi escrever sobre o treinador do Marítimo, empolgado pelos últimos resultados e exibições da equipa – que me deixaram entusiasmado mas ao mesmo tempo "baralhado". Partilho convosco este "mistério"…

Mistério chamado Lori Sandri
Data: 11-10-2008

Em Junho passado, um técnico brasileiro de nome Lori Sandri assumiu o cargo de treinador principal do Marítimo. Tratava-se de um desconhecido do comum adepto nacional, cuja breve análise do seu currículo não aspirava a grandes voos. Impressionava sobretudo a sua "incapacidade" de, nas últimas temporadas, se manter num só clube durante uma época inteira. Para mais, vinha substituir um outro seu compatriota que, para mal dos seus pecados, havia colocado o Marítimo num lugar europeu. Era um desafio…

Para ajudar à festa a pré-época do Marítimo foi, no mínimo, "sui generis". Um planeamento discutível, com um período de trabalho em São Vicente sem as condições exigíveis para uma equipa profissional do topo do futebol português; uma viagem à Venezuela em condições surrealistas, que implicaram andar com a casa às costas e a treinar em campos cercados de serpentes; por fim, as habituais ‘novelas’ das entradas e saídas de jogadores, cujos episódios se arrastaram já campeonato dentro. As consequências não podiam ser mais claras. Uma equipa amorfa, sem interligação, ainda à procura de fio de jogo. Uma rotatividade de jogadores do onze principal que apenas se justificaria numa fase preparatória de uma equipa. Ao fim de 3 jogos, 2 derrotas, 1 empate e zero em golos marcados.

Mas depois veio uma surpresa chamada Valência. Numa eliminatória em que todos condenavam o Marítimo ao lugar de ‘saco de pancada’, a equipa assumiu-se e fez a vida negra ao colosso espanhol. E, continuo a crer que, se não fosse um infeliz árbitro croata, o Marítimo tinha provocado o primeiro escândalo futebolístico da época. Entremeio os primeiros golos no campeonato, fruto de uma vitória frente à Académica e, na passada terça-feira, num campo tradicionalmente difícil para as cores verde-rubras. Depois de um rol de críticas vindas de todos os lados (inclusive do vosso relator), de outras conversas de escárnio e maldizer, surge um Marítimo surpreendente e um Lori Sandri qual Fénix renascida das chamas.

 
Fonte: DN, de 11/10/2008

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