Archive for the ‘Reflexões’ Category

Os novos velhos

Março 11, 2010 - 2:24 am No Comments

 
Dizer que “o jovem de hoje será o idoso de amanhã” poderá soar a lugar-comum, mas quando se trata de imaginar a sociedade portuguesa em 2050 – quando cerca de um terço da população deverá ter mais de 60 anos, em vez do um quinto actual. Esta foi a conclusão deste post que coloquei há alguns dias.

De facto, aquela ideia quase preconcebida do idoso frágil e doente, com as novas gerações, terá que necessariamente ser revisto. A ‘terceira idade’, cada vez mais, deixará de ser vista apenas como um caminho para o fim, mas sim uma oportunidade para explorar outras vias. Os exemplos que se seguem são o melhor exemplo disto mesmo.

Aos 92 anos de idade, Maria José Dias é professora de piano. Dá aulas na sua residência na cidade de Faro, no Algarve. De personalidade cativante, discurso fácil e atento, é um exemplo de longevidade e amor pela sua profissão. Pelo seu piano já passaram centenas de alunos. Conta que os seus métodos continuam iguais desde que começou a ensinar, há várias décadas atrás. E promete que continuará aqui para as voltas. A reportagem é da RTP1.

 

(Jornal da Tarde – RTP 1)

 
Ruth Flowers ou Mamma Rock como é conhecida no meio, é a DJ mais velha do mundo. Tem actuado em clubes badalados de Londres e da França, e do alto dos seus 69 anos não deixa ninguém parado quando assume o controlo da música. Sempre de óculos escuros, roupas brilhantes e seu fone de ouvido prateado, já é uma das personalidades mais reconhecida das pistas de dança. Tudo começou quando, há 5 anos atrás, foi à festa de seu neto, numa casa nocturna londrina e ficou maravilhada com o que ouviu e viu. Convenceu-se que podia fazer o mesmo. A partir daí nunca mais parou. A reportagem é igualmente da RTP1.

 

(Jornal da Tarde – RTP 1)

 
«O melhor jeito de conseguir que alguém faça determinada coisa é sugerir que talvez esteja velho demais para a obra». Não sei quem disse ou escreveu isto mas, à luz actual, alguém desmente?

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Os Portugueses em 2050

Março 8, 2010 - 2:40 am No Comments

 
(Foto: autor desconhecido)

Madalena Palmeirim tem de 22 anos. Vive em Lisboa, é licenciada e está a tirar mestrado, até há pouco tempo praticou voleibol, evita comer fritos porque sabe que lhe fazem mal, usa a Internet desde os 13 anos, tem página no Facebook e outra da sua banda musical no MySpace.

Em 2050, quando tiver 62 anos, imagina-se em plena actividade profissional e não lhe choca a ideia de entrar na reforma só por volta dos 70, nem sequer conta com o Estado para lha pagar – “pela via das dúvidas”, fez um plano poupança reforma há dois anos. Parece-lhe “justo” que o fim da vida chegue por volta dos 80 anos, em sua casa, idealmente com alguém a quem pague para lhe prestar os cuidados de que precisar.

Nessa altura, Madalena vai fazer parte da faixa etária da população portuguesa que mais vai crescer – os com mais de 60 anos, apontam as projecções das Nações Unidas e do Instituto Nacional de Estatística.

Dizer que “o jovem de hoje será o idoso de amanhã” poderá soar a lugar-comum, mas quando se trata de imaginar a sociedade portuguesa em 2050 – quando cerca de um terço da população deverá ter mais de 60 anos, em vez do um quinto actual – esta frase é a chave do futuro.

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Portugueses de brandos costumes

Março 7, 2010 - 4:33 pm No Comments

 

Cerca de 63 por cento dos portugueses toleram a corrupção desde que produza efeitos benéficos para a população em geral, revelou hoje no Parlamento o investigador Luís de Sousa, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista na análise do fenómeno da corrupção.

O problema não está somente em quem nos dirige, mas sim em nós. Os Portugueses são um povo de conformados. Se 59,8% acham que o primeiro-ministro é mentiroso, ao mesmo tempo, 54% ainda acham que tem condições para governar. Basta ainda recordar a sistemática eleição de autarcas condenados. Poderíamos até justificar da inexistência duma alternativa de oposição credível, mas já ninguém acredita nisso.

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Paragem obrigatória…

Março 2, 2010 - 1:09 pm No Comments

 
(Foto: AP)

… para pensar.

“Nenhum evento por si próprio é sinal de alterações climáticas. Não foi a primeira vez que aconteceu uma tempestade na Madeira. Há registos idênticos de há 30 ou 40 anos. Pode sim observar-se um conjunto vasto de fenómenos dos últimos anos que representa um mundo que está em mudança”. As palavras são de António Baptista, director do centro norte-americano de Ciência e Tecnologia para a Observação de Margens Costeiras, e colaborador com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

Quando posto num contexto de vários eventos extremos que estão a acontecer – os terramotos no Haiti e Chile, as inundações e deslizamentos na Madeira e Açores, as enchentes em Portugal continental e em França -, practicamente num espaço de dois meses, temos indicação de que há mudança. Faz sentido dizer que há mudanças profundas, apenas não sabemos exactamente quais são. Mas todos nós estamos agora a ver os efeitos e temos de percebê-los e reagir em consonância.

“É preciso antecipar agora, tomar as medidas necessárias para ter zonas saudáveis, que permitam aos animais ser saudáveis e aos homens também. Não há ambiguidade ou dúvida. É profunda e irreversível a mudança”.

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‘Eu tive um sonho’ em 1985

Março 1, 2010 - 3:06 am 1 Comment

 
(Foto: AP)

 
Este foi um texto publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no DIÁRIO de Notícias do Funchal. Um texto pela caneta de Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor. Uma profecia que vista de longe parece… realizada!

Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço.

Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente. Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele.

Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor

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Contagem estranha

Fevereiro 24, 2010 - 1:58 am 4 Comments

 
(Na foto: várias equipas cinotécnicas da GNR estão em busca de cadáveres)

 
“Admito que haja confusão, mas garanto não haver mais de 42 mortos”

- Conceição Estudante, secretária regional dos Transportes e Turismo

 
Apesar de terem sido encontrados esta tarde, pelo menos, mais quatro corpos sem vida – dois mortos na Ribeira Brava, junto do campo de futebol, e outros dois na Quinta dos Reis, na descida das Barbosas (Monte) – o Governo Regional garante que o número de mortos se mantém estacionário nos 42 referidos no Domingo, e que só o número de desaparecidos é que tem sido um pouco flutuante.

Informações contraditórias postas a circular, nomeadamente por testemunhas oculares, apontam para um mais elevado número de vítimas e põem em causa os números oficiais. A justificação para a manutenção do número oficial avançadado pelo Governo Regional advém de que os cadáveres entrados nas últimas horas no posto de socorro marítimo do aeroporto e na morgue do hospital, já estavam reportados pela Protecção Civil.

A confusão aumenta quando, o próprio presidente da câmara do Funchal, em conferência de imprensa dada esta tarde, garantiu que no Funchal não tinha sido localizado qualquer corpo sem vida nas últimas 24 horas, apesar dos dois corpos encontrados hoje no Monte.

Acho muito estranho esta contagem. Todos nós desejamos que os números sejam efectivamente baixos mas creio que, perante as imagens e as evidências, já ninguém acredita nos números avançados pelas entidades oficiais. O que aconteceu na Madeira foi trágico. Mas ainda mais trágico e infeliz será desrespeitar os mortos, não contabilizando o verdadeiro número de vítimas.

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O discreto encontro de Obama com o Dalai Lama

Fevereiro 19, 2010 - 2:52 am 1 Comment

 
(Foto: Pete Souza)

Quando ontem o Presidente norte-americano, Barack Obama, recebeu o Dalai Lama na Sala dos Mapas da Casa Branca, estava certo de que iria enfurecer Pequim, que vê esta reunião como um obstáculo às suas relações bilaterais. Foram ignorados os pedidos chineses para que a visita fosse anulada e Obama manifestou o seu “forte apoio” à defesa dos direitos tibetanos.

Recorde-se que Pequim não tem poupado esforços para evitar os encontros internacionais do líder tibetano. E as tentativas têm sido bem sucedidas. No ano passado, apenas os primeiros-ministros checo e dinamarquês receberam o Dalai Lama, contra 21 responsáveis nos quatro anos anteriores. Pelo que, ser recebido na Casa Branca por Obama é um passo de gigante… mesmo que discreto.

 

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele ou pela sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.

- Nelson Mandela

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O que não falta é “Sol”

Fevereiro 19, 2010 - 2:45 am No Comments

 
(clicar para aumentar)

José Sócrates falou ao País. Numa conferência de imprensa muito aguardada onde se esperava as explicações que deve ao país sobre o plano governamental para controlar os média. Existe, não existe? Falou mas não explicou. E, na vez, sem nada acrescentar ao que já havia dito, adiantou uma terceira versão da mesma história, que nem ele, nem o Governo, “qualquer orientação à PT, ou a qualquer dos seus administradores, para adquirir a TVI ou qualquer outra empresa de comunicação social”.

E entretanto, o País segue desgovernado. E hoje, é dia de “Sol“. Uma capa com o título “Assim falam os boys” dá conta da terceira leva de escutas divulgadas pela semanário, no âmbito do processo Face Oculta. Na capa o jornal mostra as conversas entre Paulo Penedos e Marcos Perestrelo sobre pagamentos à Fundação Luís Figo para que o futebolista apoie Sócrates. A dívida de explicações a saldar cresce a olhos vistos.

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Outros heróis!

Fevereiro 17, 2010 - 2:52 am No Comments

 
(Foto: Oswaldo Rivas/Reuters)

O relatório anual do Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ), intitulado “Ataques à Imprensa 2009” e divulgado hoje em Nairobi, sublinha que o ano passado foi o pior para os jornalistas na África subsariana, onde 12 profissionais perderam a vida: nove na Somália e os restantes no Quénia, Nigéria e Madagáscar.

De acordo com o documento do CPJ, o leste da África é a zona mais perigosa do continente para exercer jornalismo, em especial na Somália, Etiópia e Eritreia, de onde dezenas de jornalistas foram forçados a exilar-se. O Zimbabué, o Ruanda e a Gâmbia também perderam grandes segmentos da imprensa local devido à intimidação e violência.

Esta “fuga de jornalistas” tem consequências locais e internacionais, já que não apenas as audiências locais ficam sem fontes de informação confiáveis mas também os meios internacionais perdem o tipo de fonte e de conhecimentos que apenas um jornalista local consegue obter.

O ano passado foi mesmo o pior para os jornalistas, com um total de 71 profissionais assassinados em todo o mundo. Pelo que, a todos aqueles que nos fazem chegar diariamente notícias de todos os pontos do mundo, muitas vezes com a própria vida, o meu reconhecimento, louvor e gratidão.

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Suicídio no local de Trabalho – uma visão aterradora

Fevereiro 7, 2010 - 5:33 pm No Comments

 

 
Na semana passada li uma entrevista muito interessante no Público. O entrevistado era Christophe Dejours, psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, e director do Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. O tema, o suicídio no local de trabalho. Tema tão transversal na actualidade que acabamos por falar em várias matérias.

Eis algumas passagens que sublinhei:

O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa.

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”

Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.

O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, não pode haver inteligência no trabalho sem envolvimento pessoal – sem um envolvimento total. Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relação aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto não podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente. Hoje, vemo-nos obrigados a dizer aos nossos filhos que é preciso trabalhar, mas não muito. É uma mensagem totalmente contraditória.

A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não quer ouvir falar disso. Ora, quando o ideal se transforma na condição para obter uma certificação, o que acontece é que se está a obrigar toda a gente a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Deixa de ser possível falar do que não funciona, das dificuldades encontradas. Quando há um incidente numa central nuclear, o melhor é não dizer nada.

O médico, que tem o doente à sua frente, pensa que essa não é a boa abordagem – porque sabe que o doente tem problemas com a mulher, com os filhos e não vai conseguir fazer o tratamento recomendado. Mas sabe também que se não fizer o que está lá escrito, e se por acaso as coisas derem para o torto, poderá haver um inquérito, a pedido da família ou de um gestor, e vão dizer que foi o médico que não fez o que devia. O problema da qualidade total é que obriga muitos de nós a viver essa experiência atroz que consiste em fazer o nosso trabalho de uma forma que nos envergonha.

É um relato impressionante de um dos maiores especialista do mundo na matéria. Para ler e reler e, sobretudo reflectir. Veja aqui o artigo completo.

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