O sismo de magnitude 8.8 na escala de Richter que no passado sábado devastou o território chileno provocou um deslocamento de oito centímetros do eixo do planeta. Como consequência, a duração do dia se encurtou em 1,26 microsegundos. A conclusão é de Richard Gross, um especialista da agência espacial norte-americana, NASA.
Abana que mexe…
Ironias do destino…
É costume dizer-se que a vida imita a ficção. Mas há situações em que a realidade é mais desvairada que a própria ficção. Depois da discussão carnavalesca sobre a Lei das Finanças Regionais, em que a aprovação da alteração pretendido iria colocar o país num caos orçamental, então não é que, após a intempérie que assolou a Madeira, o Governo da República deliberou substituí-la por uma nova lei extraordinária que vigorará durante o período da reconstrução da Madeira?
Paragem obrigatória…
… para pensar.
“Nenhum evento por si próprio é sinal de alterações climáticas. Não foi a primeira vez que aconteceu uma tempestade na Madeira. Há registos idênticos de há 30 ou 40 anos. Pode sim observar-se um conjunto vasto de fenómenos dos últimos anos que representa um mundo que está em mudança”. As palavras são de António Baptista, director do centro norte-americano de Ciência e Tecnologia para a Observação de Margens Costeiras, e colaborador com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
Quando posto num contexto de vários eventos extremos que estão a acontecer – os terramotos no Haiti e Chile, as inundações e deslizamentos na Madeira e Açores, as enchentes em Portugal continental e em França -, practicamente num espaço de dois meses, temos indicação de que há mudança. Faz sentido dizer que há mudanças profundas, apenas não sabemos exactamente quais são. Mas todos nós estamos agora a ver os efeitos e temos de percebê-los e reagir em consonância.
“É preciso antecipar agora, tomar as medidas necessárias para ter zonas saudáveis, que permitam aos animais ser saudáveis e aos homens também. Não há ambiguidade ou dúvida. É profunda e irreversível a mudança”.
‘Eu tive um sonho’ em 1985
Este foi um texto publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no DIÁRIO de Notícias do Funchal. Um texto pela caneta de Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor. Uma profecia que vista de longe parece… realizada!
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço.
Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente. Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.
Dei o alarme – pensem nele.
Cecílio Gomes da Silva, Engenheiro Silvicultor
Terramoto no Chile
O sismo de 8,8 graus na escala de Richter que sacudiu ontem o Chile tirou a vida a 300 pessoas, segundo o último balanço oficial. Os novos dados indicam também que estão desaparecidas 15 pessoas e que dois milhões de pessoas foram afectadas pelo terramoto. Estima-se ainda que o violento sismo tenha provocado danos em milhão de casas.
A Presidente do Chile, Michelle Bachelet, declarou estado de catástrofe em seis regiões do país e, numa declaração ao país, pediu “força” aos chilenos para superar o pior terramoto sentido no Chile em meio século. Concepción, a segunda maior cidade do Chile, foi a zona mais afectada pelo abalo, onde prédios foram completamente destruídos e algumas pontes ruíram.
Depois de não se ter registado o cenário mais temido no Havai, as ondas do tsunami gerado sábado no Chile acabaram por chegar ao norte do Japão. Mais de 640 mil casas foram evacuadas em 20 prefeituras (unidade territorial japonesa) perante o alerta de ondas de 2 a 3 metros.
As cidades portuárias de Nemuro em Hocaido e Kesennuma em Miyagi foram as mais afectadas, tendo o mar invadido várias ruas das zonas mais baixas. Em nenhum caso foram registadas vítimas, dado o tempo que as autoridades japonesas tiveram para preparar a população.
Só nos primeiros dois meses de 2010 já se contabilizaram vários acidentes naturais. Haiti, Madeira, Chile. Sempre com muitos mortos, milhares de desalojados e prejuízos incalculáveis. O planeta está a avisar-nos. Reagiremos a tempo?
Madeira – que futuro?
(Foto: Cláudia Amador Rodrigues)
Apesar das ameaças meteorológicas para este sábado – faz uma semana desde a intempérie que pôs a Madeira na boca do mundo – a verdade é que, aos poucos, o Funchal vai limpando a face. Muito deve-se ao empenho do Governo Regional que, entre outras medidas, mobilizou 110 máquinas e 250 camiões só para os trabalhos de limpeza das ribeiras e estradas em toda a ilha. Mas também todo o trabalho feito de voluntários, entre jovens e mais velhos, que dia após dia, encontra-mo-los de pá e botas a limpar as ruas e lojas do Funchal.
Mas muito trabalho ainda há por fazer. Sobretudo nas zonas altas do Funchal. Com as terras ainda húmidas e periclitantes, o trabalho é moroso e muito complicado. Se a baixa do Funchal caminha para a recuperação – no próximo domingo desembarcam cerca de 4500 turistas – o que se pode esperar das zonas altas das freguesias do Monte e Santo António, da Serra de Água e da Tábua, ainda é uma enorme incógnita.
Os prejuízos da destruição de 100 quilómetros de estadas (um quinto da rede regional), cerca de 500 viaturas, 60 habitações e centenas de equipamentos, estima-se que rondarão os mil milhões de euros, o que representa metade do orçamento regional, num prazo de recuperação e reconstrução que pode ir de dois a dez anos.
Insubstituível são as vidas humanas que já se perderam. O número de mortos confirmados, causados pelo temporal que assolou a ilha da Madeira no sábado, subiu de 41 para 42, anunciou hoje a porta-voz do Governo Regional, Conceição Estudante, que registou igualmente um número menor de desaparecidos, apenas oito.
O futuro é um desafio. Mas é também uma oportunidade. Não de reconstrução mas de construção planeada. Se assim o será, só o futuro o dirá.
‘Visão’ solidária e polémica
(Visão – Edição n.º 886, 25/02/2010)
O temporal trágico que assolou a ilha da Madeira, a 20 de Fevereiro, deixou um rasto de destruição em várias zonas da ilha, com dezenas de mortos, centenas de desalojados, a perda de bens materiais e património local. Neste âmbito, ao comprar a edição da VISÃO que chegou esta quinta-feira, 25 de Fevereiro às bancas, o leitor está a contribuir com 0,50 euros para a reconstrução da Madeira.
E como dá para ver pela capa, nesta edição a Visão trás uma reportagem interessante, intitulada de «A catástrofe não caiu do céu».
Pode-se ler que a possibilidade de ocorrer uma aluvião como a que assolou a Madeira, no sábado passado, bem como as formas de prevenir e minimizar os riscos deste tipo de fenómeno, constava de pelo menos quatro estudos técnicos e relatórios oficiais, elaborados nos últimos 17 anos. Particularmente num documento conjunto do Governo Regional e do Governo da República, financiado pela Comissão Europeia, datado de 2003 – o Plano Regional da Água da Madeira (PRAN) – concebido por mais de 50 técnicos, descrevia-se em pormenor o tipo de obras e intervenções que deveriam ser efectuadas, de modo a minorar o impacto das cheias repentinas.
Além do alargamento e limpeza regular dos leitos das ribeiras, era também sugerida a implementação de sistemas de vigilância e alerta de cheias, bem como a criação de albufeiras, bacias de retenção e estruturas de amortecimento das águas, ao longo dos cursos que rasgam as montanhas que abraçam o Funchal. Nada foi feito.
A engenheira civil Manuela Portela, professora do Instituto Superior Técnico e uma das autoras do PRAN, afirma que esta catástrofe era expectável: “A cheia é um fenómeno intrinsecamente natural. O que aconteceu é um problema de desordenamento do território – e de incúria.”
Saiba mais na Visão.
Serra d’Água em imagens
As fotos abaixo são um impressionante registo de um morador da Serra de Água. Absolutamente inacreditável…
A Serra de Água, elo de ligação entre São Vicente e Ribeira Brava, foi uma das mais fustigadas pelo temporal que espalhou morte e destruição pela ilha da Madeira. Isolada a partir da Ribeira Brava, a localidade continua sem água nem luz. O acesso é possível a pé ou então pelo lado de São Vicente.
Visão gráfica da tragédia
Contagem estranha
(Na foto: várias equipas cinotécnicas da GNR estão em busca de cadáveres)
“Admito que haja confusão, mas garanto não haver mais de 42 mortos”
- Conceição Estudante, secretária regional dos Transportes e Turismo
Apesar de terem sido encontrados esta tarde, pelo menos, mais quatro corpos sem vida – dois mortos na Ribeira Brava, junto do campo de futebol, e outros dois na Quinta dos Reis, na descida das Barbosas (Monte) – o Governo Regional garante que o número de mortos se mantém estacionário nos 42 referidos no Domingo, e que só o número de desaparecidos é que tem sido um pouco flutuante.
Informações contraditórias postas a circular, nomeadamente por testemunhas oculares, apontam para um mais elevado número de vítimas e põem em causa os números oficiais. A justificação para a manutenção do número oficial avançadado pelo Governo Regional advém de que os cadáveres entrados nas últimas horas no posto de socorro marítimo do aeroporto e na morgue do hospital, já estavam reportados pela Protecção Civil.
A confusão aumenta quando, o próprio presidente da câmara do Funchal, em conferência de imprensa dada esta tarde, garantiu que no Funchal não tinha sido localizado qualquer corpo sem vida nas últimas 24 horas, apesar dos dois corpos encontrados hoje no Monte.
Acho muito estranho esta contagem. Todos nós desejamos que os números sejam efectivamente baixos mas creio que, perante as imagens e as evidências, já ninguém acredita nos números avançados pelas entidades oficiais. O que aconteceu na Madeira foi trágico. Mas ainda mais trágico e infeliz será desrespeitar os mortos, não contabilizando o verdadeiro número de vítimas.



























