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Escutas em Belém?

 

Ao quarto dia de polémica, o Presidente da República demitiu o seu assessor de imprensa. Fernando Lima, que nos últimos 20 anos foi o homem de confiança de Cavaco Silva, primeiro em São Bento e agora em Belém, não resistiu ao caso das alegadas escutas.

As suspeitas de escutas por parte do gabinete do primeiro-ministro à Presidência da República foram levantadas por Fernando Lima e, este, terá procurado o jornalista do Público Luciano Alvarez, em nome do próprio Presidente. Num encontro, que terá decorrido em Abril de 2008, “num café discreto da Av. de Roma”, o assessor de Belém entregou a Luciano Alvarez um dossier sobre Rui Paulo de Figueiredo, adjunto jurídico de José Sócrates, cujo comportamento levantou suspeitas aquando da visita de Cavaco Silva à Madeira. Lima estaria convencido que este adjunto de Sócrates integrou a comitiva para “observar, o mais dentro possível, os passos da visita do Presidente e o modo de funcionamento interno do staff presidencial”.

Todas estas informações constam de um e-mail enviado por Alvarez ao correspondente na Madeira, Tolentino de Nóbrega, no qual relata o encontro com Fernando Lima e sugere que até seria bom que a história viesse da Madeira, para que o ónus não recaísse sobre a Presidência: “O Lima sugere e eu acho bem duas perguntas para o início do trabalho (até porque a eles também interessa que isto comece na Madeira para não parecer que foi Belém que passou esta informação, mas sim alguém ligado ao Jardim).”

Nesse e-mail de 23 de Abril de 2008, Alvarez refere-se ao assunto como a possível bomba atómica, se a história for confirmada. Admitindo que tudo não passe de “paranóia dos do PR e do Lima”, faz questão de frisar que “não deixa de ser grave que o PR pense isto e que ande a passar informação ao Público, manifestando grande vontade da história vir a público.”

Tolentino de Nóbrega respondeu ao mail de Alvarez a 5 de Maio de 2008. Nessa mensagem deita por terra as desconfianças de Belém: “Conforme disse em contacto telefónico, feito na semana passada, julgo que tudo isto não passa, como admitiste, de paranóia do PR & Lima”. O correspondente no Funchal descreve, depois, exaustivamente, os passos que deu para tentar confirmar a que título e como Rui Paulo de Figueiredo esteve presente nas cerimónias da visita do Presidente da República à região autónoma.

Quase um ano e meio depois, o jornal publica a manchete a dar conta das alegadas escutas por parte do gabinete de Sócrates a Belém, sustentando, um dia depois, notícia da véspera com as suspeitas à volta da presença de Rui Paulo de Figueiredo no Funchal. Desde que o caso foi divulgado, o que só aconteceu em Agosto deste ano, 17 meses depois, não houve qualquer desmentido da Presidência da República.

Porém, ontem à tarde, a agência Lusa noticiou, citando fonte oficial da Presidência da República, que Cavaco Silva afastou Fernando Lima do cargo por “decisão do Presidente da República”. Não houve comunicado, apenas as alterações no site oficial de Belém, que indicam que as funções passam agora a ser assumidas por José Carlos Vieira, que já fazia parte da equipa. A confirmar-se que Fernando Lima sai por decisão do Presidente, Cavaco começa a reagir ao “caso das escutas”, em que o seu assessor de imprensa aparece num mail como tendo passado ao jornal Público, a seu pedido, a informação de que a Casa Civil do Presidente desconfiava de estar a ser “espiada” pelo gabinete do primeiro-ministro.

Cavaco Silva tinha prometido só falar do assunto depois das eleições legislativas do próximo domingo. Garantiu ainda que iria pedir explicações sobre “questões de segurança”. Mas há já quem veja nesta decisão a assumpção por parte do Chefe do Estado de que as informações contidas no e-mail divulgado pelo DN são verdadeiras.

Este caso é, no mínimo, estranho. E nem a demissão do acessor do Presidente é bastante para descortinar o que se passa. A substância do assunto não está esclarecida. Importa sabe se a suspeita de que havia escutas é ou não verdadeira? Não há nada da Presidência da República a dizer que foi tudo um engano.

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